Publicado em ago 2025
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As universidades australianas, como seus pares ao redor do mundo, estão enfrentando mudançasprofundas na forma como o ensino superior é imaginado, oferecido e valorizado. A última década — especialmente os anos após a pandemia — trouxe transformações significativas em tecnologia, mobilidade estudantil, práticas de ensino e expectativas culturais. Por um lado, essa é uma história de inovação notável. Mas também é a história do que podemos estar correndo o risco de perder.
A globalização, a transformação digital, o aumento da diversidade
linguística e cultural, e as expectativas em evolução dos estudantes
estão levando as universidades a repensar o que fazem e como fazem. De
várias formas, as instituições australianas responderam a esse chamado.
Vimos a expansão do ensino híbrido, colaborações internacionais mais
profundas, práticas de ensino centradas no estudante e um foco renovado
em inclusão e bem-estar. Mas junto com essas mudanças, há um padrão mais
silencioso e preocupante, que muitos de nós que atuamos no setor estamos
começando a reconhecer publicamente.
A sala de aula global — e as pressões globais
A Austrália há muito se posiciona como um polo para estudantesinternacionais, e com razão. Com mais de 30% das matrículas vindas do exterior, as universidades se adaptaram desenvolvendo programas globais, parcerias internacionais e plataformas flexíveis para apoiar a colaboração transfronteiriça. Cursos híbridos e online já deixaram de ser novidade, e a “empregabilidade global” virou um argumento padrão pra atrair estudantes.
Mas sob essa superfície de conexão global, existem sinais de tensão. Como em muitas partes do mundo, as políticas de internacionalização estão cada vez mais centradas no retorno econômico. Estudantes internacionais são frequentemente vistos não como acadêmicos, mas como fontes de receita. O suporte linguístico é, às vezes, oferecido de forma acessória, e não integrado de fato. E, embora falemos em “internacionalizar o currículo”, na prática, esse trabalho continua desigual e muitas vezes simbólico.
Nesse contexto, o multilinguismo, frequentemente apresentado como um
ativo institucional, corre o risco de se tornar uma mercadoria. Vendemos
a diversidade para atrair estudantes, mas frequentemente falhamos em
criar espaço para pedagogias verdadeiramente multilíngues
ou para a voz dos estudantes. E isso não acontece só na Austrália — é
um eco também em muitos contextos do chamado “Sul Global”, o que sugere
que estamos lidando com lógicas estruturais compartilhadas, e não
problemas restritos geograficamente.
Uma reforma guiada pelo mercado: a que, de fato, estamos nos adaptando?
É fácil enxergar as mudanças tecnológicas e globais como sinais de progresso. Mas essas mesmas transformações vieram acompanhadas por uma lógica de mercado crescente que está reformulando o cerne do ensino superior. Em toda a Austrália, estamos testemunhando a erosão dos departamentos delínguas, o esvaziamento das humanidades e o fechamento de programas de formação de professores focados em línguas e no ensino de inglês como segunda língua.
Apesar da Austrália ser uma das nações mais multilíngues do mundo, a educação linguística tem sido sistematicamente desvalorizada, sacrificada, muitas vezes silenciosamente, em nome da “eficiência”. O discurso público ainda celebra o multiculturalismo, sim, mas a infraestrutura que o sustenta — especialização em línguas, ensino intercultural, engajamento comunitário contínuo — está desaparecendo.
O que está surgindo no lugar é um sistema guiado por métricas demercado
— número de matrículas, captação de recursos para pesquisa, parcerias
com a indústria. O conhecimento está sendo reclassificado com base no
seu “retorno sobre investimento”. E os tipos de saber que não geram
valor econômico imediato — como os conhecimentos indígenas, a teoria
crítica, o aprendizado de línguas — parecem, cada vez mais, vistos como
descartáveis.
O que os estudantes querem — e o que eles realmente recebem
Para deixar claro, as universidades têm feito progressos significativos em responder às necessidades dos estudantes. Houve uma mudança perceptível para práticas de ensino mais inclusivas, um foco maior na saúde mental e nobem-estar, e esforços crescentes para envolver os estudantes nas decisões. Em algumas instituições, os estudantes até colaboram na criaçãodo currículo, o que é encorajador e muito esperado há tempos.
Mas, ao mesmo tempo, a relação entre estudantes e universidades está
mudando. Os diplomas são vendidos como produtos, e os estudantes são
cada vez mais vistos como clientes. Essa mudança tem implicações
concretas: disciplinas consideradas “de baixa demanda” desaparecem, os
programas são redesenhados para serem mais curtos, dinâmicos e focados
na carreira. E muitas vezes isso significa menos espaço para
ambiguidade, para a linguagem, para um aprendizado profundo.
Tecnologia: empolgante, mas não neutra
A inovação tecnológica, sem dúvida, abriu novas possibilidades. A mudança para o ensino online durante a COVID foi impressionante, ainda que por vezes imperfeita. Desde então, vimos o crescimento de laboratórios virtuais, suporte de escrita com IA, até simulações imersivas. Muitas dessas ferramentas são verdadeiramente transformadoras.
Mas não podemos nos dar ao luxo de ser acríticos. Nem todos os
estudantes têm o mesmo acesso à tecnologia. Nem todos os educadores
estão preparados para usá-la de forma significativa. E, embora
ferramentas de IA como o ChatGPT ofereçam novas formas de interagir com
o conteúdo, elas também levantam questões sérias sobre integridade
acadêmica, autoria e o que realmente significa aprender. Precisamos de
mais do que entusiasmo; precisamos de estruturas éticas, estratégias
pedagógicas e tempo para reflexão.
E agora, para onde vamos?
É tentador celebrar essa capacidade de adaptação. E sim, as universidades australianas fizeram muito para acompanhar as mudanças. Mas talvez a tarefa mais urgente seja perguntar: A que exatamente estamos nos adaptando? E o que podemos estar perdendo ao longo do caminho?
Se aceitarmos a reestruturação da educação segundo valores neoliberais como inevitável, corremos o risco de perder de vista paraque as universidades realmente servem. O ensino superior deveria ser um espaço para a curiosidade, a crítica e o intercâmbio cultural, e não apenas para a obtenção de diplomas. E deveria valorizar uma visão mais ampla de “impacto” além do crescimento econômico.
Pelo país, tenho visto trabalhos incríveis sendo feitos, muitas vezes silenciosamente, muitas vezes por educadores e estudantes que atuam nas margens, para manter vivas essas missões mais amplas. Eles estão construindo salas de aula multilíngues, desenvolvendo pedagogias sensíveisa traumas e criando espaços para a colaboração comunitária. Esse é o tipo de trabalho que devemos valorizar, e não deixar passar despercebido.
A questão, na verdade, não é se as universidades podem se adaptar. É se podemos escolher para o que estamos nos adaptando.