Publicado em ago 2025
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Dr. Rodríguez, permita-me começar afirmando o quanto é uma honra contar com suas reflexões nesta edição especial da UniNewsletter sobre a evolução estratégica das instituições de ensino superior. Primeiro, como de costume em nossas entrevistas da seção Destaque de Liderança, por favor, apresente-se aos nossos leitores e conte um pouco sobre sua trajetória no ensino superior até o momento.
Obrigado pelo convite para conversar com a UniNewsletter. Tenho a honra de servir como o 20º presidente da University at Albany. A UAlbany faz parte do sistema da Universidade Estadual de Nova York (SUNY) e está localizada na capital do estado de Nova York, Albany. Antes de ser nomeado presidente da UAlbany, atuei como reitor fundador e vice-presidente executivo de assuntos acadêmicos na University of Texas Rio Grande Valley (UTRGV), além de presidente interino e vice-presidente de assuntos acadêmicos na University of Texas-Pan American (UTPA). Também exerci diversos cargos de liderança e docência na University of Delaware e na University of Puerto Rico-Mayagüez.
Passei minha infância vivendo em Nova York e Porto Rico, onde fui
criado por uma mãe solteira que sempre ressaltou a importância da
educação. Porém, cursar uma graduação não era algo tão óbvio para mim.
Primeiro, obtive um diploma técnico como mecânico de automóveis e depois
me juntei à Força Aérea dos EUA, onde servi como Técnico em Emergências
Médicas. Enquanto estava estacionado na Inglaterra com a Força Aérea,
consegui meu diploma de bacharel e, o mais importante, conheci um mentor
que me incentivou a continuar meus estudos, mudando completamente o rumo
da minha vida. Sem a confiança que ele depositou em mim, não sei se
teria trilhado esse caminho. Ao longo da minha carreira acadêmica, minha
pesquisa tem se concentrado no impacto socioeconômico de desastres em
comunidades vulneráveis — nacional e globalmente — bem como na pobreza e
desigualdade de renda entre as comunidades latinas nos EUA e Porto
Rico.
Primeiro, gostaria de perguntar sobre a reintegração da Faculdade de Engenharia e Ciência em Nanoescala à UAlbany e seu envolvimento com o Centro Nacional de Tecnologia de Semicondutores. Como essas iniciativas refletem sua visão mais ampla sobre o papel em evolução das universidades de pesquisa no século 21?
Essa reunificação é um motivo de grande orgulho para mim e um feito transformador para a University at Albany — especialmente porque, quando cheguei à UAlbany, quase todos me disseram que trazer essa faculdade de volta seria politicamente impossível. A Faculdade de Engenharia e Ciência em Nanoescala foi criada na UAlbany há mais de duas décadas e foi a primeira faculdade nos EUA dedicada ao estudo da nanotecnologia. Infelizmente, em 2014, ela foi separada da UAlbany. A partir de 2017, trabalhamos muito para trazê-la de volta à UAlbany. Em 2023, esse esforço deu frutos e reintegramos a faculdade, agora ampliada e chamada Faculdade de Nanotecnologia, Ciência e Engenharia. Ela não apenas está prosperando, como é um elemento essencial do futuro estratégico da UAlbany e da política econômica mais ampla dos EUA. Com a aprovação da CHIPS & Science Act (lei para promoção e financiamento da indústria de semicondutores e chips eletrônicos), que financia o Centro Nacional de Tecnologia de Semicondutores (CNTS) — que ficará sediado no Albany Nano-Tech —, os responsáveis federais nos EUA tinham objetivos claros: garantir a liderança dos EUA em áreas críticas de pesquisa e desenvolvimento em semicondutores e microeletrônica, essenciais para aplicações como a inteligência artificial; reforçar a capacidade de manufatura nacional para produzir os chips necessários à segurança econômica e nacional; e assegurar uma força de trabalho diversa e qualificada para realizar tudo isso. A Faculdade de Nanotecnologia, Ciência e Engenharia tem um papel importante em todas essas frentes.
Nossos professores pesquisadores são líderes em áreas críticas como a
litografia EUV, que será o foco do CNTS aqui. Nossos estudantes aprendem
com os melhores em seus campos, em programas adaptados às necessidades
da indústria, enquanto ganham uma experiência prática incomparável em
nossas instalações acadêmicas e com nossos parceiros industriais. A
UAlbany tem contribuído para o ecossistema de inovação aberta que atraiu
grandes fábricas de chips para o interior de Nova York. À medida que as
instituições de pesquisa são cada vez mais chamadas a comprovar seu
valor e justificar o apoio público, esse é exatamente o tipo de trabalho
que devemos realizar. A pesquisa da Faculdade de Nanotecnologia, Ciência
e Engenharia está alinhada com os interesses econômicos dos EUA, e
estamos preparando a próxima geração de engenheiros e cientistas de
semicondutores para carreiras gratificantes e bem remuneradas em um
campo de alta demanda.
O reconhecimento da UAlbany como a primeira universidade R1 no nordeste dos EUA a receber o “Seal of Excelencia” é um marco significativo. Quais estratégias e práticas institucionais específicas impulsionaram essa conquista e como elas orientam sua abordagem de longo prazo para a excelência inclusiva?
A UAlbany tem orgulho de ser uma das universidades R1 mais diversas dos Estados Unidos, e conquistar o “Seal of Excelencia” foi uma validação muito importante do trabalho que realizamos para apoiar a diversidade e a inclusão em nosso campus. Temos orgulho de ser uma instituição onde a diversidade é celebrada, onde a equidade orienta nosso trabalho e onde a inclusão está sempre em primeiro plano.
Quando pensamos em excelência inclusiva na UAlbany, focamos em programas que apoiam todos os estudantes, encontrando-os onde estão e oferecendo as ferramentas e oportunidades que precisam para ter sucesso. Por exemplo, como mais de 30% dos nossos alunos são os primeiros da família a cursar uma faculdade, no ano passado lançamos o Great Danes 101 — um curso online bilíngue para pais e familiares que desmistifica o ambiente universitário e os ajuda a apoiar melhor seus estudantes.
Na nossa candidatura ao Seal of Excelencia, destacamos várias iniciativas em andamento que contribuem para o sucesso da nossa população latina — e de todos os estudantes. Isso inclui programas de preparação que apresentam a UAlbany a estudantes de diversas origens; programas de oportunidade que oferecem apoio financeiro e acadêmico; e acordos de admissão dupla com faculdades comunitárias de todo o estado de Nova York, que facilitam a transferência de estudantes para a UAlbany para concluir seu bacharelado.
Com essas e outras iniciativas, nossa abordagem é identificar as causas
principais que dificultam o sucesso estudantil, desenvolver estratégias
baseadas em dados para enfrentá-las e, em seguida, revisar e aprimorar
essas estratégias com base nos resultados. Consequentemente, a UAlbany
não é apenas uma das instituições de pesquisa mais diversas do país, mas
também está entre as melhores instituições nacionais no que diz respeito
à mobilidade econômica de seus estudantes.
A UAlbany lançou recentemente uma iniciativa universitária sobre inteligência artificial. Como a instituição está trabalhando para incorporar a IA em diferentes disciplinas acadêmicas e áreas de pesquisa, e quais oportunidades ou desafios surgiram nesse processo?
A inteligência artificial (IA) está revolucionando rapidamente nosso mundo — desde a forma como trabalhamos, nos comunicamos, conduzimos pesquisas e educamos nossos estudantes. A UAlbany está determinada a liderar esse movimento, aproveitando o incrível potencial dessa tecnologia, ao mesmo tempo em que garante que nossos alunos estejam preparados para utilizar essa poderosa ferramenta, independentemente da área que escolherem.
Esses objetivos motivaram a criação da iniciativa AI Plus, um esforço em toda a universidade que visa integrar o ensino e a aprendizagem sobre IA em nossos programas acadêmicos e de pesquisa. Desde o lançamento da iniciativa em 2022, realizamos a maior contratação em massa da história da universidade, trazendo 27 novos professores com expertise em IA para todas as escolas e faculdades da UAlbany. Também criamos o AI Plus Institute, que funciona como um centro central para nossas pesquisas de ponta em IA. Além disso, instalamos um supercomputador avançado de IA, usado por estudantes e pesquisadores de diversas áreas.
O lançamento em 2025 do AI & Society College e do AI Society Research Center vai ainda mais longe, criando uma infraestrutura acadêmica para apoiar o desenvolvimento de currículos inovadores focados em IA e colaborações de pesquisa que exploram a interseção entre a IA e a humanidade.
Percebemos que nossos alunos e professores estão ansiosos para aprender mais sobre IA e incorporar essa tecnologia em seus trabalhos acadêmicos e pesquisas. Também descobrimos que líderes empresariais desejam que nossos formandos já possuam algum conhecimento sobre IA ao ingressarem no mercado de trabalho.
Todo esse trabalho tem sido fortalecido pelo apoio estratégico e
liderança do Estado de Nova York e da governadora Kathy Hochul. O Empire
AI Consortium de Nova York está reunindo universidades públicas e
privadas, incluindo a UAlbany, junto a líderes da indústria e do
terceiro setor, com o objetivo de tornar Nova York uma liderança
nacional em IA.
Com iniciativas como a Aprendizagem Internacional Colaborativa Online (Collaborative Online International Learning/ COIL) e microcredenciais nas estratégias de educação internacional, a UAlbany tem ampliado suas oportunidades de aprendizado global. Como esses programas enriquecem a experiência dos estudantes e ajudam a preparar os formandos para um mundo cada vez mais interconectado?
Nossa missão na UAlbany é formar cidadãos globais engajados e, por
isso, a internacionalização é uma das cinco prioridades estratégicas da
universidade. Cerca de 10% da nossa população estudantil, ou
aproximadamente 1.700 alunos, são internacionais. Eles trazem muita
diversidade e riqueza para o nosso campus, compartilhando sua história,
cultura, idioma, tradições e culinária com Albany. Além disso, muitos
dos nossos estudantes têm experiências internacionais durante o curso,
por meio de programas de intercâmbio, bolsas, professores visitantes e
iniciativas como o COIL. Sabemos que, ao deixarem nosso campus, nossos
formandos estarão inseridos em um mundo interconectado e global. Temos a
obrigação de prepará-los para ter sucesso em uma sociedade global. Por
isso, nossas parcerias internacionais e colaborações acadêmicas e de
pesquisa abrangem o mundo todo.
O engajamento das universidades com suas economias locais é uma questão importante. Como o senhor vê o papel da UAlbany evoluindo tanto como instituição global quanto como um polo regional, especialmente no contexto, por exemplo, da transformação da antiga Albany High School em um centro para engenharia e nanotecnologia?
Somos uma instituição âncora na cidade de Albany e em toda a Região da Capital de Nova York, com um impacto econômico anual de US$ 1,1 bilhão nas comunidades ao nosso redor. O sucesso da universidade e da cidade estão intrinsecamente ligados, por isso considero fundamental que estejamos engajados com os líderes empresariais locais e que, ao crescermos e evoluirmos, o façamos tendo em mente as necessidades da comunidade local. A antiga Albany High School é um excelente exemplo disso. O edifício histórico esteve desocupado por vários anos, e sua revitalização era uma prioridade para a UAlbany e para a cidade. Ao mesmo tempo, nossa Faculdade de Nanotecnologia, Ciência e Engenharia precisava de um espaço avançado para continuar crescendo e atraindo talentos de ponta.
O projeto levou muitos anos para ser concluído, incluindo vários anos
para garantir financiamento estadual, mas o resultado final foi uma
instalação moderna que atende às necessidades atuais e futuras da
universidade, resolve um problema e cria novas oportunidades para a
cidade, além de apoiar o crescimento contínuo da indústria regional de
semicondutores. O novo prédio da Faculdade de Nanotecnologia, Ciência e
Engenharia preserva o caráter e a arquitetura histórica do edifício
original e acrescenta espaços inovadores para ensino e pesquisa, um
makerspace e salas para o
crescimento de programas essenciais. Na minha visão, o sucesso de um
projeto assim depende de cultivar parcerias sólidas com todos os
envolvidos, incluindo autoridades eleitas, líderes da indústria,
associação de moradores e os professores e pesquisadores que agora
trabalham e ensinam no prédio. Para as universidades públicas, atuar
como um elo entre esses grupos e buscar atender às necessidades da
comunidade são papéis essenciais.
À medida que as instituições de ensino superior enfrentam crescentes pressões financeiras e demográficas, como a UAlbany está se posicionando para permanecer resiliente e sustentável? Quais lições foram aprendidas com os desenvolvimentos recentes no cenário regional do ensino superior?
A University at Albany existe há mais de 180 anos, portanto, perseveramos e prosperamos através de muitas mudanças sociais, políticas e econômicas. Assim, a resiliência faz parte do nosso DNA. Essa longa história nos oferece uma perspectiva importante para enfrentarmos novos desafios. Uma das chaves para lidar com o ambiente em constante evolução de hoje é desenvolver parcerias fortes com a indústria. Nesse sentido, estabeleci recentemente o Conselho Consultivo Presidencial para Desenvolvimento Industrial e Econômico, que reúne os líderes das principais indústrias da nossa região — incluindo fabricação de semicondutores, pesquisa farmacêutica, saúde, computação e inteligência artificial — para dialogar com a universidade. Esse grupo está ajudando a UAlbany a identificar as necessidades da força de trabalho regional que se alinham com nossos pontos fortes, potenciais colaborações em pesquisa, além de oportunidades de estágio e emprego para nossos estudantes e ex-alunos.
Também estamos fortalecendo nossas conexões com associações e organizações nacionais e internacionais do ensino superior, como a Association of Public & Land-Grant Universities (APLU), Campus Compact, Hispanic Educational Technology Services (HETS), Excelencia in Education, Presidents and Chancellors Council on Public Impact Research da Pew Charitable Trusts, e a Middle States Commission on Higher Education. Enquanto participo dos conselhos dessas organizações, elas também possibilitam uma colaboração próxima com outras universidades que enfrentam desafios semelhantes.
Por fim, estamos trabalhando arduamente para contar uma história clara
sobre o valor das universidades públicas como a nossa para políticos
eleitos, formuladores de políticas, líderes empresariais e o público em
geral. Sabemos que a UAlbany é uma força para o bem no mundo. Por meio
da educação, impulsionamos nossos estudantes para um futuro melhor. Em
nossos laboratórios de pesquisa, desenvolvemos avanços e solucionamos
problemas que levam a vidas mais saudáveis, seguras e prósperas. Por
meio do nosso trabalho acadêmico, ampliamos nossa compreensão do mundo
ao nosso redor. Em tudo que fazemos na UAlbany, nosso foco é servir ao
bem público. É fundamental que essa história seja contada com
orgulho.
Para concluir com um tema particularmente importante, o senhor foi recentemente nomeado para a Comissão Consultiva da Casa Branca para o Avanço da Equidade Educacional, Excelência e Oportunidade Econômica para Hispanos. Como essa função influenciou sua liderança na UAlbany, e de que maneiras as universidades públicas podem contribuir de forma mais eficaz para as políticas nacionais de ensino superior? Especialmente em relação a questões de equidade e inclusão.
Senti-me imensamente honrado ao ser nomeado para a Comissão Consultiva do Presidente Biden para o Avanço da Equidade Educacional, Excelência e Oportunidade Econômica para Hispanos, e tenho muito orgulho do trabalho que realizamos como Comissão. Eu presidi o comitê de Ensino Superior da Comissão, que trabalhou para identificar oportunidades para o governo federal usar o poder do ensino superior para elevar as comunidades. As recomendações que apresentamos abordaram desafios reais e oportunidades para latinos/as que buscam o ensino superior, e até resultaram em uma Ordem Executiva. Tive a rara oportunidade de estar no Salão Oval da Casa Branca quando o presidente Biden assinou essa Ordem Executiva, uma honra que jamais esquecerei.
Com a mudança de administração, infelizmente a Comissão foi dissolvida, mas as lições que aprendi durante meu serviço continuam a influenciar minha liderança na UAlbany e na minha comunidade. Uma lição importante foi o poder de desenvolver parcerias amplas. A Comissão reuniu líderes do ensino superior, educação básica (K-12), negócios, terceiro setor e governo. As experiências e expertises únicas de cada membro contribuíram para as recomendações que fizemos, e nosso trabalho foi melhor por isso. Também aprendi muito sobre o funcionamento interno do governo federal dos EUA e o quanto é necessário para transformar uma ideia em política pública, desde a coleta de evidências e elaboração de argumentos fortes até a construção de apoio dentro do governo.
Desde que servi na Comissão, estou mais atento ao poder das parcerias e às oportunidades que tenho, como líder universitário, para ser um defensor de políticas que beneficiem as comunidades que sirvo