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Tornando o impacto da pesquisa mais do que um slogan:

Tornando o impacto da pesquisa mais do que um slogan:

No Canadá, onde praticamente todas as universidades são financiadas com recursos públicos, pesquisadores enfrentam uma pressão crescente para demonstrar aos financiadores governamentais e aos contribuintes o valor prático de seu trabalho. Atualmente, a maioria dos programas de fomento federais e provinciais exige que as propostas de pesquisa incluam um plano de “mobilização do conhecimento”. Cada vez mais, não basta que um projeto tenha mérito acadêmico; ele também precisa demonstrar potencial para gerar resultados tangíveis, com benefícios econômicos, sociais ou ambientais.

Apesar dos incentivos incorporados aos programas de financiamento, a mobilização do conhecimento continua sendo mais um slogan do que uma prática amplamente disseminada. É hora de repensar o que realmente é necessário para levar o conhecimento científico do processo de revisão por pares para a “vida real” — e o tipo de talento exigido para isso. Para transformar a ciência em impacto, precisamos olhar além da expertise científica em si e dos profissionais formados exclusivamente nas áreas científicas.


A lacuna de talentos na mobilização do conhecimento

Para viabilizar a mobilização do conhecimento, muitas universidades passaram a contratar uma nova categoria de administradores — os chamados mobilizadores profissionais do conhecimento. O papel desses profissionais é comunicar a pesquisa para além da torre de marfim da academia e estimular sua aplicação prática.

Em teoria, contar com um mobilizador de conhecimento dedicado deveria permitir que as equipes de pesquisa avançassem rapidamente em seus objetivos de impacto. Na prática, porém, a mobilização do conhecimento exige um conjunto diverso de competências que vai muito além da formação de muitos desses profissionais. Em um artigo de referência, pesquisadores britânicos e canadenses identificaram 11 categorias distintas de “competências de impacto” necessárias para a mobilização do conhecimento. Em sua maioria, elas envolvem habilidades não científicas, como gestão da mudança, comunicação, facilitação, negociação, liderança, gestão de projetos, engajamento e gestão de partes interessadas e desenvolvimento de capacidades.

A lista é tão extensa que chega a ser difícil imaginar uma única pessoa reunindo todas essas competências. Ainda assim, restrições orçamentárias fazem com que muitas organizações de pesquisa consigam contratar apenas um profissional para a área de mobilização do conhecimento. Como cientistas tendem a contratar outros cientistas — muitas vezes recém-formados em programas de mestrado ou doutorado — muitos dos chamados mobilizadores profissionais do conhecimento acabam não possuindo o conjunto completo de habilidades necessárias para desempenhar plenamente suas funções.


Por que precisamos de mais perfis em T do que em I

Basta buscar vagas de “mobilização do conhecimento” no LinkedIn para perceber um padrão nas descrições de cargo. A maioria das organizações de pesquisa procura contratar profissionais em formato de I – pessoas com um conjunto de habilidades baseado em conhecimento profundo, ou vertical, de uma área específica. Por exemplo, um instituto de pesquisa dedicado à biologia marinha provavelmente anunciará uma vaga para um biólogo marinho e descartará candidatos com formação em bioquímica.

Esse foco no conhecimento disciplinar ignora a necessidade de profissionais com competências mais amplas — pessoas com perfil em T, e não em I. Trata-se de indivíduos que combinam um nível adequado de conhecimento vertical com um conjunto de habilidades horizontais e adaptáveis. A “barra superior” do T permite que transitem por diferentes áreas e situações com desenvoltura.

Ao contrário do que muitos anúncios de emprego sugerem, a mobilização do conhecimento envolve muito mais do que simplesmente traduzir pesquisas em resumos em linguagem simples ou compartilhar dados nas redes sociais. Embora atividades básicas de comunicação científica possam ajudar a aumentar a visibilidade de um tema de pesquisa, elas não fazem com que tomadores de decisão utilizem esse conhecimento para formular políticas públicas ou criar produtos inovadores.

A verdadeira mobilização do conhecimento acontece por meio de atividades intencionais — e muitas vezes intensivas — de construção de relacionamentos. Isso inclui, por exemplo, eventos comunitários, parcerias com organizações da sociedade civil e reuniões (muitas reuniões) com formuladores de políticas públicas e outros tomadores de decisão.

Enquanto alguém com formação científica pode atuar de forma competente em um papel mais restrito de comunicação científica – desde que permaneça dentro de sua especialidade – esse profissional geralmente carece das habilidades humanas que diferenciam um perfil em I de um perfil em T. Sua formação acadêmica lhe confere um vocabulário preciso e um profundo entendimento metodológico, mas costuma deixar lacunas na compreensão de como as pessoas funcionam, de como navegar situações sociais delicadas e de como acessar e influenciar indivíduos inseridos em sistemas complexos.

É verdade que muitos mobilizadores profissionais do conhecimento com formação científica desenvolvem sensibilidade social ao longo da experiência. No entanto, se queremos acelerar o fluxo da pesquisa da academia para a prática, por que não contratar profissionais que já cheguem preparados, com as competências críticas para a missão?


Ajuda vinda das humanidades

Na mobilização do conhecimento, assim como em tantas outras áreas, a IA vem sendo apresentada como a resposta para muitas ineficiências. De fato, tecnologias emergentes podem apoiar diversos aspectos desse processo: acelerar etapas de pesquisa de base, automatizar redações de baixo nível e rotineiras, auxiliar em design gráfico, edição de vídeo e otimizar processos administrativos.

O que a IA não fará, porém, é resolver a lacuna de talentos criada pela contratação de profissionais com perfil em I para liderar iniciativas de mobilização do conhecimento. Para mobilizar o conhecimento de verdade, precisamos de mais do que as ferramentas mais recentes. Precisamos de pessoas capazes de mobilizar pessoas.

Embora estudiosos tenham desenvolvido dezenas de teorias, modelos e estruturas para explicar como a mobilização do conhecimento poderia ou deveria funcionar, nenhum diagrama organizado consegue capturar a complexidade do processo à medida que ele realmente acontece. No momento em que as pessoas entram em cena, as linhas retas começam a oscilar e os caminhos claramente definidos se tornam nebulosos.

São exatamente essas as condições em que profissionais formados nas humanidades se destacam – algo bem representado nas famosas palavras do poema “Jabberwocky”, de Lewis Carroll:

’Twas brillig, and the slithy toves
Did gyre and gimble in the wabe:
All mimsy were the borogoves,
And the mome raths outgrabe.

Vistas por uma lente científica, para falantes de inglês, essas palavras (se é que podemos chamá-las assim) parecem puro nonsense. Para uma mente treinada a apreciar e navegar ambiguidades artísticas, no entanto, elas fazem perfeito sentido. Por meio de formas linguísticas não convencionais, o poema transmite a experiência de entrar em um mundo misterioso e ameaçador. O fato de a linguagem não poder ser decodificada sílaba por sílaba não significa que não possamos acessá-la ou interpretá-la.

Grande parte do processo de mobilização do conhecimento — que varia de uma situação nebulosa para outra — se assemelha a abrir caminho em meio ao desconhecido. Para liderar esse percurso, precisamos de mobilizadores do conhecimento capazes de atuar sem GPS, profissionais que recorram a outras formas de atribuir sentido à realidade.

Não estou falando de ferramentas antigas, como sextantes, mas das habilidades refinadas desenvolvidas por meio do estudo das humanidades, como letras, filosofia, música, história da arte, línguas modernas, estudos clássicos e ciência política. A formação acadêmica nessas áreas aprimora a alfabetização em pesquisa e desenvolve competências como percepção social, comunicação interpessoal, narrativa, persuasão, resolução de problemas, pensamento crítico, pensamento criativo, pensamento estratégico, reflexão e metacognição — a capacidade de pensar criticamente sobre os próprios processos de pensamento.

Para encontrar esse talento em formato de T, as organizações de pesquisa não precisam sair em busca de um unicórnio — o cientista raro que reúne tanto profundo conhecimento técnico quanto habilidades humanas sofisticadas. Basta olhar para as áreas das humanidades, que têm uma longa tradição no desenvolvimento dessas competências horizontais, incluindo a capacidade de compreender ideias complexas em diferentes campos do conhecimento.

Como ex-pesquisadora de literatura do século XIX, converti minhas habilidades das humanidades em consultoria em comunicação para pesquisadores de uma ampla variedade de áreas, da IA às ciências veterinárias. Se quisermos levar a sério a aceleração da mobilização do conhecimento, precisamos criar mais oportunidades para que outros humanistas contribuam com essa causa.

No Canadá e em outros países, a mobilização do conhecimento deixou de ser um “algo a mais” desejável e passou a ser uma exigência. À medida que os problemas do mundo se tornam mais complexos e urgentes, espera-se que pesquisadores apresentem orientações e soluções inovadoras. Para que isso aconteça, não podemos depender apenas de cientistas ou de ferramentas baseadas em IA para mobilizar a pesquisa. Precisamos de talentos em formato de T, capazes de liderar trabalhos multidimensionais e relacionais — e os formados em humanidades estão singularmente preparados para assumir esse papel.