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Da fragmentação ao alinhamento: como as universidades promovem a criatividade em três níveis

Da fragmentação ao alinhamento: como as universidades promovem a criatividade em três níveis

Há tempos a criatividade tem sido uma das principais moedas de valor das universidades, sendo visível em resultados científicos como publicações, ensino, transferência de conhecimento e criação de empresas derivadas (spin-offs). No entanto, as condições sob as quais esses resultados são gerados e valorizados estão mudando. Em meio à instabilidade geopolítica, às restrições financeiras cada vez maiores e ao crescente ceticismo da sociedade em relação à ciência, as universidades já não podem ser avaliadas apenas pelo que produzem, mas também por sua capacidade de renovação.

Por isso, a criatividade não pode mais ser tratada como um simples subproduto das atividades acadêmicas; ela precisa ser promovida de forma ativa. No entanto, a criatividade não surge espontaneamente. Ela é moldada – ou limitada – pelas condições institucionais que são, muitas vezes, definidas por estruturas rígidas de governança, métricas limitadas de desempenho e lógicas organizacionais fragmentadas.

Enfrentar esse desafio exige mais do que reformas incrementais. Requer uma perspectiva sistêmica, mais bem abordada por meio de uma estratégia multinível que alinhe indivíduos, instituições e ecossistemas regionais, permitindo que as universidades transformem potencial criativo em inovação sustentável.


O nível individual: reconhecendo e desenvolvendo potencial

Em primeiro lugar, a criatividade tem origem nos indivíduos e em sua capacidade de gerar novas ideias e perspectivas. Essa capacidade, mais bem compreendida como potencial, evolui ao longo do tempo e não pode ser totalmente medida apenas com base em desempenhos passados. Por isso, os processos de recrutamento e desenvolvimento de carreira precisam mudar seu foco para a identificação de qualidades que possibilitem contribuições futuras.

Nesse contexto, Claudio Fernández-Aráoz argumenta, em seu artigo “21st-Century Talent Spotting” (“Identificação de Talentos no Século XXI”), que o primeiro indicador é o tipo certo de motivação, definido como um forte compromisso com objetivos que vão além do interesse pessoal. Além disso, ele aponta outras quatro dimensões fundamentais para identificar indivíduos de alto potencial: curiosidade, discernimento, engajamento e determinação. Essas características são particularmente relevantes em ambientes de pesquisa complexos, nos quais a inovação depende menos do conhecimento acumulado e mais da capacidade de lidar com incertezas, integrar diferentes perspectivas e manter o esforço ao longo do tempo.

Essa perspectiva está influenciando cada vez mais os sistemas de recrutamento acadêmico na Europa, que tradicionalmente se baseavam na senioridade e no mérito acumulado. Universidades como a ETH Zurich e a Universidade Técnica de Munique foram algumas das primeiras instituições em seus respectivos países a implementar sistemas de tenure track que valorizam a independência precoce e o potencial futuro. Além disso, organizações de pesquisa como a Sociedade Max Planck e o Laboratório Europeu de Biologia Molecular oferecem modelos de liderança de grupos de pesquisa que proporcionam aos pesquisadores em início de carreira autonomia e recursos para desenvolver ideias ousadas.

No entanto, identificar e cultivar o potencial individual, por si só, não é suficiente. Sem ambientes favoráveis, mesmo indivíduos altamente capacitados não conseguem desenvolver plenamente sua capacidade criativa. Isso desloca a atenção para o próximo aspecto da discussão: o nível institucional.


O nível institucional: universidades como facilitadoras

Para promover a criatividade, as universidades precisam redefinir seu papel, deixando de ser avaliadoras de desempenho para se tornarem facilitadoras do potencial. Isso exige o alinhamento entre cultura e governança.

Uma cultura institucional favorável é a base desse processo. Ela incentiva a experimentação, tolera o fracasso e valoriza perspectivas diversas, ao mesmo tempo em que prioriza o desenvolvimento de capacidades de longo prazo em vez de métricas de curto prazo. O Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) exemplifica essa abordagem por meio de sua tradicional estratégia de “sandbox” (ambiente de experimentação), com iniciativas como o MIT Media Lab e o Undergraduate Research Opportunities Program (UROP), que oferecem ambientes propícios à pesquisa exploratória. Da mesma forma, a Universidade Aalto integra a cocriação ao centro de sua atuação por meio de plataformas interdisciplinares como a Design Factory. Em todos esses exemplos, considerados modelos por inúmeras universidades, emerge um princípio comum: a criatividade prospera quando as instituições reduzem ativamente as barreiras à colaboração e à exploração.

Esse princípio também precisa estar refletido na governança e na estrutura institucional. Mecanismos flexíveis de financiamento e modelos organizacionais adaptáveis são essenciais para apoiar o trabalho interdisciplinar e a disposição para assumir riscos calculados. Iniciativas pioneiras da Universidade Stanford, como a Bio-X e o Stanford Institute for Human-Centered AI (HAI), demonstram como estruturas interdisciplinares dedicadas podem ultrapassar fronteiras tradicionais e alinhar a pesquisa a desafios sociais mais amplos.

No entanto, mesmo instituições bem alinhadas não conseguem concretizar plenamente a criatividade de forma isolada. Seu impacto depende da eficácia com que estão inseridas e conectadas aos ambientes que as cercam.


O nível regional: conectando potencial ao território

As universidades precisam reconhecer que são partes integrantes dos ecossistemas regionais. Sua capacidade de transformar criatividade em valor social e econômico depende de conexões sólidas com a indústria, formuladores de políticas públicas e a sociedade civil. O engajamento regional eficaz começa pelo alinhamento entre os pontos fortes institucionais e as prioridades da região. A colaboração baseada na confiança facilita a troca de conhecimento, apoia o empreendedorismo e cria caminhos para gerar impacto. Isso é particularmente importante para regiões localizadas fora dos grandes centros metropolitanos, onde as universidades podem atuar como âncoras de transformação ao conectar conhecimento acadêmico ao desenvolvimento local. No entanto, esses ecossistemas frequentemente enfrentam limitações estruturais. Os sistemas de financiamento costumam priorizar a excelência individual ou institucional, negligenciando os espaços intermediários onde a colaboração e a transferência de conhecimento acontecem. Como resultado, as condições necessárias para a geração contínua de impactos criativos permanecem insuficientemente desenvolvidas. Investimentos direcionados e voltados para as necessidades específicas de cada território podem ajudar a reduzir essa lacuna. Na Alemanha, a Fundação Dieter Schwarz demonstra como um compromisso regional de longo prazo no Heilbronn Bildungscampus pode fortalecer ecossistemas de inovação ao conectar educação, pesquisa e desenvolvimento econômico.

Essas abordagens destacam um ponto fundamental: a criatividade alcança seu potencial máximo quando as capacidades individuais e as estruturas institucionais são efetivamente conectadas aos contextos regionais.


Rompendo barreiras: superando restrições sistêmicas

Promover a criatividade no ensino superior exige alinhamento entre três níveis interconectados: indivíduos, instituições e ecossistemas regionais. Cada nível oferece condições necessárias, mas não suficientes por si só. Somente a interação entre eles permite o surgimento de uma criatividade sustentável.

Uma perspectiva multinível não representa uma solução rápida, mas oferece uma maneira estruturada de enfrentar a fragmentação. Adotar essa abordagem pode reposicionar as universidades como agentes integradores, conectando talentos, estruturas e ambientes em sistemas coerentes de inovação.

Em última análise, a criatividade deixa de ser apenas um resultado e passa a ser uma capacidade cultivada deliberadamente por meio do alinhamento entre pessoas, organizações e lugares.