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Uma carreira de impacto

Uma carreira de impacto

As trajetórias profissionais raramente seguem uma linha reta. A minha, de reguladora governamental a líder acadêmica, foi moldada por decisões calculadas, oportunidades inesperadas e um profundo senso de propósito. Isso me ensinou que a evolução profissional costuma acontecer no cruzamento entre preparo e oportunidade. Minha trajetória profissional não convencional — desde atuar em inspeções de instalações como Física de Saúde na Autoridade Federal de Regulação Nuclear dos Emirados até dirigir um departamento acadêmico economicamente bem-sucedido— traz lições importantes para estudantes que estão planejando seus futuros caminhos profissionais.


Construindo minha base

Minha vida profissional em saúde e segurança ambiental não começou em sala de aula, mas sim no campo. Depois de concluir meu bacharelado em Física Médica, um Diploma de Pós-Graduação da AIEA e um mestrado em Proteção Radiológica e Segurança de Fontes de Radiação, tornei-me Coordenadora de HSE (Saúde, Segurança e Meio Ambiente) no Conselho Supremo de Petróleo dos EAU em 2008.

Fui imediatamente atraída pelas aplicações reais e concretas de saúde e segurança. Trabalhar no setor de petróleo e gás me expôs a radionuclídeos naturais, sistemas de dosimetria pessoal e ao complexo desafio de manter a conformidade regulatória. Era um trabalho exigente, acelerado e profundamente gratificante.

Em 2010, ingressei na Autoridade Federal de Regulação Nuclear (FANR) dos EAU como Física de Saúde — cargo que ocupei por sete anos. Ali, fiquei no ponto de encontro entre ciência, política e proteção pública, conduzindo mais de 100 inspeções em instalações dos setores nuclear, médico e industrial. Cada inspeção tinha suas particularidades — desde unidades de radioterapia em hospitais até instalações radiográficas em indústrias pesadas. Minha missão era assegurar conformidade com normas internacionais de segurança e proteger trabalhadores, o público e o meio ambiente.

O trabalho de inspeção regulatória era exigente. Ele pedia não apenas precisão técnica, mas também empatia e comunicação. Como inspetora, aprendi que o objetivo não era simplesmente encontrar falhas — era ajudar as organizações a resolver problemas e construir uma cultura de segurança.


O Ponto de Virada: Entrando na Academia

Depois de quase uma década em funções regulatórias, fiz uma escolha inesperada: matriculei-me em um programa de doutorado na Universidade dos EAU. Após concluir o doutorado, cheguei a considerar rapidamente seguir para a pesquisa de pós-doutorado. Muitos colegas questionaram por que eu deixaria uma posição estável e respeitada. A resposta era simples — eu queria ampliar meu impacto.

Embora meu trabalho regulatório fosse gratificante, eu me sentia cada vez mais atraída pela pesquisa e pela educação. Com o tempo, comecei a perceber problemas recorrentes nas instalações: falhas de treinamento, procedimentos desatualizados e desconhecimento sobre riscos emergentes. Percebi que poderia gerar um impacto mais amplo e duradouro ao abordar essas questões sistêmicas por meio da pesquisa e ao ensinar a próxima geração de profissionais em saúde e segurança ambiental.

Retornar ao meio acadêmico enquanto trabalhava em tempo integral não foi fácil; voltar à vida de estudante foi um verdadeiro sacrifício. Conciliar responsabilidades profissionais com a pesquisa exigiu precisão, disciplina e muita resiliência. Mas eu sabia que o custo de oportunidade de continuar estudando acabaria abrindo novas portas — e me permitiria contribuir de formas que antes não eram possíveis.

Minha pesquisa de pós-doutorado na Carleton University, no Canadá, focada no experimento de detecção de matéria escura DEAP-3600, ampliou minha compreensão sobre colaboração científica em grande escala e pesquisa de precisão. Participar de um projeto internacional dessa magnitude me ensinou o valor do rigor analítico, do trabalho em equipe e da gestão meticulosa de dados — habilidades que continuam a orientar minha liderança hoje.


De Reguladora a Educadora: competências transferíveis

Meus anos como reguladora continuam moldando minha abordagem na academia. As habilidades que desenvolvi em campo se traduzem diretamente no meu ensino, na minha pesquisa e na minha liderança:

  • Atenção aos detalhes: No trabalho regulatório, precisão não é negociável. Um dado ignorado ou um resultado mal interpretado pode gerar implicações sérias. Esse mesmo compromisso com a exatidão orienta minha pesquisa acadêmica e a forma como preparo os estudantes para conduzirem suas próprias investigações.
  • Comunicação: Na FANR, eu traduzia regularmente conceitos técnicos complexos para diferentes públicos — operadores de instalações, gestores e autoridades internacionais. Na academia, essa mesma habilidade me permite envolver os estudantes, colaborar com colegas e comunicar resultados de pesquisa com clareza.
  • Pensamento crítico e resolução de problemas: Cada inspeção trazia um novo desafio, exigindo análise, adaptabilidade e criatividade. São essas mesmas capacidades que hoje incentivo nos meus alunos ao enfrentarem problemas científicos e questões reais.
  • Compreensão contextual: Minha experiência regulatória me garante uma perspectiva autêntica de como a teoria se transforma em prática. Ao ensinar proteção radiológica, saúde ocupacional ou conformidade ambiental, posso recorrer diretamente a casos reais — tornando as aulas mais concretas e relevantes.


Liderança acadêmica: lições da administração

Como Chefe do Departamento de Saúde Ambiental e Pública na ADU, passei a entender a liderança acadêmica como a arte de criar um ambiente onde docentes e estudantes possam prosperar. Um dia típico podia envolver planejamento estratégico, revisão de propostas de financiamento, orientação de alunos ou representar o departamento em reuniões da universidade. Quando assumi o cargo, meus principais objetivos eram fortalecer nossas parcerias com a indústria e enriquecer a experiência dos estudantes. Tenho orgulho de dizer que, durante minha gestão, alcançamos ambos — construindo colaborações com grandes organizações dos EAU e internacionais e ampliando significativamente nossa oferta de programas de pós-graduação.

Acredito que esse sucesso veio de uma liderança colaborativa. Apoiar os docentes em suas ambições de pesquisa e garantir que tivessem os recursos necessários sempre foi crucial na minha abordagem. Também sou profundamente comprometida com o sucesso dos estudantes — ver meus alunos se formarem e iniciarem carreiras de impacto está entre as partes mais gratificantes do meu trabalho.

Equilibrar pesquisa, ensino e liderança exige uma gestão de tempo excepcional. Aprendi cedo na carreira que ninguém consegue fazer tudo sozinho. Delegar, priorizar e trabalhar em equipe são essenciais. Também garanto tempo protegido para minha própria pesquisa e para orientar estudantes, pois isso me mantém conectada à paixão que me levou à carreira acadêmica.


Conselho para os estudantes: Aproveitem o processo

Olhando para trás, posso dizer com segurança que uma carreira gratificante raramente segue uma linha reta. Ela é moldada por curiosidade, adaptabilidade e coragem. No início da minha trajetória, eu jamais imaginei que faria a transição do trabalho regulatório para a academia. Mas manter-me aberta a oportunidades e continuar aprendendo me guiou para um caminho profundamente alinhado aos meus valores.

Meu conselho para os estudantes é acolher todas as experiências — estágios, trabalhos de meio período, voluntariado e projetos de pesquisa — tudo contribui para o seu crescimento profissional, mesmo quando a relevância não parece evidente no início. Algumas das experiências mais transformadoras surgem dos lugares mais inesperados.

O mundo está mudando em um ritmo sem precedentes. Carreiras que hoje não existem serão essenciais amanhã. Por isso, aprendizado contínuo, pensamento crítico, comunicação e adaptabilidade são os verdadeiros pilares do sucesso.

Quando o assunto é mudar de carreira, seja reflexivo, mas também destemido. Considere como cada oportunidade se alinha aos seus valores e objetivos de longo prazo, mas não fuja de riscos calculados. O crescimento acontece quando saímos da nossa zona de conforto.


O valor da experiência prática

Sou uma forte defensora da aprendizagem experiencial. A teoria é importante, mas a experiência prática dá vida ao conhecimento. Incentivo meus alunos a buscar estágios, programas cooperativos e projetos de pesquisa que permitam aplicar os conceitos de sala de aula em contextos reais.

Certificações profissionais e educação contínua também são extremamente valiosas. Ao longo da minha carreira, concluí certificações como o NEBOSH International Certificate, IOSH Leading Safely, alcancei o título de Cientista Credenciada (Chartered Scientist) e de Senior Fellow (SFHEA), e atualmente estou buscando o status de Principal Fellow (PFHEA). Essas credenciais demonstram competência profissional e abrem portas para novas oportunidades. Sempre aconselho os alunos a explorarem certificações relevantes para sua área e a enxergá-las como parte de uma jornada de aprendizado ao longo da vida.


Pensando no futuro

Ao pensar no futuro, meu objetivo é continuar contribuindo para o avanço do conhecimento em saúde ambiental, segurança e sustentabilidade, ao mesmo tempo em que preparo a próxima geração de profissionais para enfrentar desafios globais emergentes. Também espero expandir meu trabalho como consultora, aplicando tanto minha experiência regulatória quanto meu olhar acadêmico para ajudar organizações a fortalecer seus programas de saúde e segurança.

Se existe uma mensagem que desejo deixar para os meus alunos, é esta: sua carreira é uma jornada, não um destino. Cada oportunidade, cada conquista e até os contratempos contribuem para o seu desenvolvimento. Com uma base sólida de habilidades essenciais, um compromisso com o aprendizado contínuo e a coragem de evoluir, você pode construir uma carreira significativa e impactante. O caminho pode não ser sempre linear — e é justamente isso que torna a jornada tão valiosa.